O começo é sempre muito complicado, mas a sensação de engasgo, do pré-colapso, fez perceber a necessidade de falar um pouco. Com muitas dúvidas e poucas razões, comecei a caminhar por entre os carros estacionados -à espera de...? - desviando das linhas amarelas e das minhas próprias fronteiras que já começavam a me incomodar. Havia pessoas que me fazem sorrir logo ali, tão próximas e tão embebidas na exata alegria que eu precisava... Mas eu fugi. De alguma forma, eu precisava me desvencilhar daquele labirinto de aço.
O céu nublado, os resquícios da chuva, a solidão... Tudo perfeito para uma bela e digna performance depressiva. Não rolou. A minha angústia era tal que nem ao menos me afundar no tédio melancólico me era possível. Vontade de ser invadida, amada, devorada por inteiro; conseguir finalmente a quentura e o abismo do interior daquele corpo que eu tanto desejava. As pessoas continuavam a passar e o labirinto ia tomando outras formas (ainda que tão entediantes quanto...). E eu ali, esperando que aquela figura brotasse do concreto e me fagocitasse. O sangue, a carne e a vermelhidão capazes de me dar algum sossego eram praticamente inatingíveis.
Tão fragmentada, tão pobre. Que tipo de ser é esse que se recusa a olhar de fora, a ver por inteiro? Que exige e impõe e se humilha e se consola? Que raio de criatura expera por algo e quando começa a esboçar uma imagem prefere a montanha enferrujada a defrontar-se com esse retrato, retirá-lo do papel e torná-lo finalmente algo que seja capaz de amar?
Amar ? Criar um altar? Afinal, interessa esse desejo que foge do meu, que nada tem a ver com ele, mas que habita o meu sono e que dá tom a tudo que me habita? Fico mais uma vez sem saber se realmente passei a outro lugar. Talvez fosse melhor apagar, voltar atrás, correr para alguma ordem.
Melhor ficar com as desculpas.
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Amar ? Criar um altar? Afinal, interessa esse desejo que foge do meu, que nada tem a ver com ele, mas que habita o meu sono e que dá tom a tudo que me habita? Fico mais uma vez sem saber se realmente passei a outro lugar. Talvez fosse melhor apagar, voltar atrás, correr para alguma ordem.
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