Parece que terei de abrir mão de vez da previsibilidade. A ordem do vazio havia me dado alguma consolidação, uma espécie de piso (um tanto insosso, é certo) de derrapância insignificante, porém tão bege e confortável que não mostrava necessidade alguma de reagir por outras vias.
Foi.
Queria eu poder esmiuçar, fragmentar em níveis quase microscópicos essa estranha e sedosa experiência, a tal ponto que ela já não me apavorasse. A espera por notícias, madrugadas; a ilusão de que a fera que se esconde do outro lado do oceano não será capaz de me afastar de vez dessa nova necessidade... O sofrimento alheio esmurra a porta e tudo o que consigo desenhar se resume às lendas despedaçadas de momentos atrás.
Mais um dia, mais uma viagem. Os joelhos recostados começam a adormecer e, sem que eu possa reagir, a gargalhada, as coincidências e a mágica manhã pré-canceriana invadem e dominam tudo aquilo que antes eu poderia (ou pelo menos tentava) chamar de meu. Agora é simplesmente nosso.
terça-feira, 23 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
O começo é sempre muito complicado, mas a sensação de engasgo, do pré-colapso, fez perceber a necessidade de falar um pouco. Com muitas dúvidas e poucas razões, comecei a caminhar por entre os carros estacionados -à espera de...? - desviando das linhas amarelas e das minhas próprias fronteiras que já começavam a me incomodar. Havia pessoas que me fazem sorrir logo ali, tão próximas e tão embebidas na exata alegria que eu precisava... Mas eu fugi. De alguma forma, eu precisava me desvencilhar daquele labirinto de aço.
O céu nublado, os resquícios da chuva, a solidão... Tudo perfeito para uma bela e digna performance depressiva. Não rolou. A minha angústia era tal que nem ao menos me afundar no tédio melancólico me era possível. Vontade de ser invadida, amada, devorada por inteiro; conseguir finalmente a quentura e o abismo do interior daquele corpo que eu tanto desejava. As pessoas continuavam a passar e o labirinto ia tomando outras formas (ainda que tão entediantes quanto...). E eu ali, esperando que aquela figura brotasse do concreto e me fagocitasse. O sangue, a carne e a vermelhidão capazes de me dar algum sossego eram praticamente inatingíveis.
Tão fragmentada, tão pobre. Que tipo de ser é esse que se recusa a olhar de fora, a ver por inteiro? Que exige e impõe e se humilha e se consola? Que raio de criatura expera por algo e quando começa a esboçar uma imagem prefere a montanha enferrujada a defrontar-se com esse retrato, retirá-lo do papel e torná-lo finalmente algo que seja capaz de amar?
Amar ? Criar um altar? Afinal, interessa esse desejo que foge do meu, que nada tem a ver com ele, mas que habita o meu sono e que dá tom a tudo que me habita? Fico mais uma vez sem saber se realmente passei a outro lugar. Talvez fosse melhor apagar, voltar atrás, correr para alguma ordem.
Melhor ficar com as desculpas.
O céu nublado, os resquícios da chuva, a solidão... Tudo perfeito para uma bela e digna performance depressiva. Não rolou. A minha angústia era tal que nem ao menos me afundar no tédio melancólico me era possível. Vontade de ser invadida, amada, devorada por inteiro; conseguir finalmente a quentura e o abismo do interior daquele corpo que eu tanto desejava. As pessoas continuavam a passar e o labirinto ia tomando outras formas (ainda que tão entediantes quanto...). E eu ali, esperando que aquela figura brotasse do concreto e me fagocitasse. O sangue, a carne e a vermelhidão capazes de me dar algum sossego eram praticamente inatingíveis.
Tão fragmentada, tão pobre. Que tipo de ser é esse que se recusa a olhar de fora, a ver por inteiro? Que exige e impõe e se humilha e se consola? Que raio de criatura expera por algo e quando começa a esboçar uma imagem prefere a montanha enferrujada a defrontar-se com esse retrato, retirá-lo do papel e torná-lo finalmente algo que seja capaz de amar?
Amar ? Criar um altar? Afinal, interessa esse desejo que foge do meu, que nada tem a ver com ele, mas que habita o meu sono e que dá tom a tudo que me habita? Fico mais uma vez sem saber se realmente passei a outro lugar. Talvez fosse melhor apagar, voltar atrás, correr para alguma ordem.
Melhor ficar com as desculpas.
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